Muito além do Pirata que Estica

Marcelo Innocentini Hayashi
7 min readJun 3, 2022

Por Diego Borges* e Marcelo Hayashi**

Prólogo

No dia 22 de julho de 1997, Eiichiro Oda, 22 anos, publica o primeiro capítulo do mangá de One Piece, dando início à jornada de Monkey D. Luffy para se tornar o Rei dos Piratas, título posto em disputa após a execução em praça pública de Gold Roger. Roger foi o único que conseguiu desbravar todo o oceano e encontrar o tesouro de valor inestimável, o One Piece, segundo o próprio ao dizer suas últimas palavras.

Em 8 de abril de 2022, Eiichiro Oda, 47 anos, publica o capítulo 1046 de One Piece, dando prosseguimento a uma história que continua angariando uma legião de fãs ao redor do mundo durante mais de duas décadas, enquanto Luffy e sua tripulação continuam a perseguir esse grande objetivo. One Piece é hoje uma das histórias de ficção mais longevas da história, e na nossa humilde opinião de fãs, tem um grau de profundidade e construção de universo comparáveis a obras-primas como Senhor dos Anéis e Star Wars, obras fundamentais na construção do pensamento cultural na modernidade e contemporaneidade.

Aos que acompanham a história de Oda, talvez essa afirmação soe realista, mas aos que se perguntam como um pirata que estica pode ter a capacidade de ser comparado às obras-primas citadas, vamos tentar convencê-los nesta série de textos destrinchando todos os arcos de One Piece e tentando elucidar pontos que talvez passem despercebidos em uma leitura menos atenta dos mangás e/ou do anime. Este texto em específico, no entanto, se propõe a mostrar porquê One Piece continua sendo publicado e porquê todos deveriam assistir/ler os mais de 1000 capítulos já disponíveis.

Eiichiro Oda e Luffy, criador e criatura

Antes de mais nada, gostaríamos de estabelecer algumas coisas quanto ao conteúdo a ser exposto neste e nos textos que seguirão. Em primeiro lugar, as análises e discussões levantadas aqui se darão exclusivamente à obra canônica, seja anime ou mangá; ou seja, entrevistas do autor, filmes, especulações sobre a história não serão abordados a menos que seja de fundamental importância para a compreensão dos temas que traremos acerca dos arcos. O segundo ponto é que os textos não serão resumos dos arcos nem críticas ao roteiro ou quaisquer outros aspectos técnicos da obra, isto porque outros produtores de conteúdo já o fazem e não gostaríamos de apenas reproduzir o que já foi dito acerca de qual arco é melhor que o outro, por exemplo. E terceiro é que evitaremos spoilers sempre que possível, pois esta série tem como um dos objetivos incentivar que pessoas sem contato com a obra se sintam instigadas a acompanhar, e esperamos, se apaixonar por One Piece tanto quanto os autores dessa série. O que consideramos ser um dos maiores predicados dessa obra é também um dos seus principais “defeitos”, tendo em vista que a longevidade de publicação afasta um público que fica relutante de investir tanto tempo em um único produto de entretenimento. Não é uma das opiniões mais neutras do mundo, mas a nosso ver, vale cada segundo investido.

Agora vamos ao que interessa. Olhando em uma lente mais ampla, alguns dos temas tratados por One Piece tem muito em comum com outros animes como Naruto, Jujutsu Kaizen e Dragon Ball Z. O valor da amizade, o companheirismo, a necessidade de resoluções coletivas para grandes problemas, a determinação para superar dificuldades supostamente intransponíveis, são mensagens que permeiam o gênero Shounen (voltado para um público infanto-juvenil) e que são de fácil conexão com o espectador por serem sentimentos com que todos se deparam ao longo da vida. No entanto, um anime que dura tanto tempo e que ainda consegue surpreender o leitor/espectador mesmo depois de 1000 capítulos não se sustentaria como uma obra ainda tão relevante. O que torna One Piece tão cativante é o fato de ser uma história fundamentalmente política, cujos temas permeiam debates históricos em direta relação com o espírito do nosso tempo. E além disso, esta será a principal tese defendida ao longo desta série de textos: One Piece é uma obra com viés claro de esquerda, conectado com os anseios da classe trabalhadora e que defende a possibilidade de uma alternativa concreta ao estado de coisas que nos encontramos.

A magnitude da obra de Oda vai muito além dos quadrinhos e da animação. Primeiro pelo fato da escolha que o autor teve: construir um universo através de uma história curta e que deixa muitas interpretações à subjetividade de quem lê ou costurar a história de um universo com profundidade, com calma e sempre abrindo e mantendo a possibilidade de surpreender pelo enredo? Mais do que a grande maioria dos autores fazem, Oda escolheu andar pelo caminho mais difícil, porém ele faz isso com uma leveza e uma maestria pouco vista na história da literatura. Podemos afirmar tranquilamente que o roteiro e o universo criado por Oda é uma das maiores obras literárias da história da humanidade. Fatores como a forma de construir as histórias dos arcos, a maneira de amarrar as “pontas soltas”, o modo de abordar questões sensíveis da nossa sociedade e traçar paralelos, a forma de emocionar leitores através do drama, do suspense, da comédia e da ação, são algumas das razões que trazem uma experiência única para quem se aventura nesse denso universo.

(SPOILER: só assista ao vídeo se você já terminou o arco de Dressrosa). Deixamos como indicação o vídeo do Mr. Morj, um grande analista da obra de One Piece, onde ele explica melhor sobre a forma de escrita Oda ( https://www.youtube.com/watch?v=kCC8o89sA0M). Está em inglês, porém é possível ativar as legendas automáticas em português no vídeo.

A defesa de One Piece enquanto uma obra alinhada claramente à esquerda parte de alguns pontos. Além de certas escolhas do autor, como nomear de Granma o navio do líder do Exército Revolucionário (o qual será melhor discutido em seu devido momento), em referência ao barco que levou os revolucionários comandados por Fidel Castro e Ernesto “Che” Guevara à Cuba para libertar o povo da opressão de Fulgêncio Batista, no fim da década de 50, a obra em si coloca Luffy e sua tripulação como os que lutam por liberdade a povos oprimidos. Os arcos de Alabasta e Dresrossa têm como argumento a defesa da população oprimida por um governo despótico, muitas vezes aliado à Marinha, braço armado do governo mundial e com o monopólio da violência, no sentido weberiano do termo. Water7/Ennies Lobby trata do fascismo e do apagamento concreto e simbólico da história; a Ilha dos Tritões (este talvez o mais cristalino dos temas) fala sobre racismo, com uma reverberação tardia em Arlong Park, primeiro grande arco de OP. Os arcos de Wano e Whole Cake, respectivamente, também desenvolvem tanto as consequências de uma Revolução Industrial para a classe trabalhadora pauperizada, quanto o imperialismo e a opressão de territórios na periferia do capitalismo para que o centro possa prosperar. E talvez o mais impactante de todos, a sequência Sabaody/Impel Down/Marineford dão concretude à luta de classes, discutindo o encarceramento enquanto um aparelho repressivo do Estado, e traçam uma linha no chão acerca dos reais interesses da classe dominante como mantenedora do status quo.

Traremos em nossas análises a leitura marxista para o universo de One Piece. E a razão nos parece clara quando analisamos tudo que não é diretamente falado durante a obra, seja pelos personagens da história, seja pelas indicações que Oda deixa. Afinal, uma obra de ficção não parte do zero, pois quem a escreve fala diretamente do nosso mundo, da nossa sociedade e do nosso tempo histórico. E da mesma forma que na nossa realidade material, o materialismo histórico-dialético responde a todas questões e contradições apresentadas dentro do universo de One Piece. Basta assistir ao arco de Arlong Park que isso já fica bem claro.

Luffy e parte do seu bando, os Mugiwara

Esperamos, com isso, colocar One Piece no seu devido lugar e resgatar a obra de interpretações vulgares de setores liberais/anarcocapitalistas, que deturpam a história do seu real conteúdo, retirando a potência do Luffy e de sua tripulação de serem àqueles que representam uma das principais tarefas da esquerda revolucionária: os que dão corpo ao impossível, os que sonham a utopia e os que ousam lutar.

Esperamos também que gostem de ler esta série de textos tanto quanto gostaremos de escrevê-las, pois falam com vocês não apenas marxistas comprometidos com a luta da emancipação da humanidade, mas também enquanto fãs absolutos de One Piece. Quando Luffy defende que quer ser Rei dos Piratas por considerar que tal título significa ser a pessoa mais livre do mundo, mostraremos que essa liberdade não é como a vulgarizada por outras correntes, e sim aquela conquistada em comunhão. Convidamos você, leitor/a, a se juntar a nossa tripulação nessa jornada pelo All Blue. Vamos juntos nessa?

*Diego Borges é um paraense marxista de 28 anos, doutorando de Engenharia de Produção na USP e militante do PCB.

**Marcelo Hayashi é sociólogo, doutorando em Educação na UFSCar, militante do PCB e coordenador do projeto Cordilheira Cultural.

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Marcelo Innocentini Hayashi

Corinthiano, sociólogo experimental e educador na essência. Se aventurando por novas formas de sociabilidade.